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Sessão : Quer fazer cinema, seu filho da puta?

entrevista com João Moreira Salles
Bruno Porto


O aumento do interesse dos jovens por cinema é conseqüência da retomada do
cinema brasileiro?

JOÃO MOREIRA SALLES: Existe, sim, um certo entusiasmo pelo cinema brasileiro e ele é compreensível e legítimo. Nos últimos dez anos o cinema brasileiro teve a altura daquilo que se esperava dele. Ele discutiu as questões essenciais do Brasil, propôs novas maneiras de contar histórias e ampliou seu leque de temas. Tenho medo, no entanto, de que isso leve a uma ilusão,pois o mercado está se ampliando, mas não muito. As TVs a cabo, por
exemplo, estão em crise. São poucas as pessoas que de fato conseguem viver de cinema no Brasil. Então seria bom que os alunos soubessem que fazer cinema é se arriscar. O mercado é maior do que já foi, mas ele não é tão grande ao ponto de absorver todas as pessoas que estão se formando e lá na frente isso
pode ser um problema. Certamente quem entra num curso de engenharia, medicina, administração ou economia tem muito mais certeza de que terá mais possibilidade de viver daquilo que estudou.

Como as universidades podem deixar os alunos a par da situação do
mercado?
SALLES: Na PUC, o aluno passa para comunicação social, faz um ciclo básico de dois anos e só então opta por cinema, jornalismo ou publicidade.
Durante esses dois primeiros anos, é dever da universidade informar os alunos a respeito da situação do mercado. Deveria ter alguma aula ligada ao mercado de trabalho. Outra medida importante é estimular o aluno a não entrar
no curso só pensando em virar diretor. Existem várias outras especializações que são absolutamente essenciais para que o cinema possa virar uma atividade perene no Brasil. O montador, por exemplo, é uma figura essencial no documentário, quase tanto quanto o diretor. Grande parte dos documentários não tem roteiro. Você resolve o filme na ilha de edição. O diretor de fotografia e o engenheiro de som também são essenciais.

É indispensável cursar cinema para ser um documentarista?
SALLES: Não necessariamente. Talvez seja até bom que a pessoa não estude cinema (risos). Olhando para a história do documentário, você vai ver que toda vez que alguma coisa de realmente importante aconteceu não foi pelas mãos de cineastas e sim de fora. O primeiro grande documentarista, o (americano Robert) Flaherty, era um explorador, fazia mapas. O (francês) Jean Rouch, que reinventou o documentário, era um antropólogo. O pessoal do cinema direto (escola documental americana) era jornalista. O Errol Morris, que acabou de ganhar o Oscar de melhor documentário (com "Sob a névoa da guerra"), era detetive. Eu acho que alguém que venha de uma formação de historiador, de economista ou de antropólogo, por exemplo, terá tanta chance de virar um bom documentarista quanto alguém que saiu de uma escola de cinema. É por isso que eu sempre preferi dar aulas de documentário para não-cineastas. É fundamental para o documentário o raciocínio sobre a maneira de narrar e isso é uma questão cinematográfica, mas existem outras questões essenciais. A visão de mundo e como você se aproxima do outro, por exemplo, são questões muito mais sofisticadas na antropologia do que no cinema. As boas intuições de como se aproximar do outro estão na antropologia e não nos cursos de cinema. O an-tropólogo está mais aparelhado para discutir essas questão do que o cineasta. Por outro lado, é bom que os aspirantes a documentaristas queiram fazer cinema.


Por quê?
SALLES: Porque elas podem entrar em contato com professores, documentaristas e, principalmente, com os filmes. Os jovens de hoje têm uma vantagem em relação a minha geração, que surgiu na metade da década de 80. Nós não tínhamos com quem conversar, pois não existiam cursos e era difícil ter acesso a filmes. Quando comecei a fazer documentários, em 86, 87, não sabia quem era Flaherty, (o inglês John) Grieson e o pessoal do cinema direto. Hoje é diferente. Os alunos já chegam com uma base sólida.

Como é o perfil do estudante de cinema de hoje?
SALLES: Hoje tem um pouco de tudo. Numa sala de vinte alunos, existem pessoas que são claramente vocacionadas para o cinema mais comercial, e que entendem a importância desse cinema, que, de fato, é importante, e outras que gostam de um cinema mais experimental, mais fechado. Eu acho que essas duas figuras são essenciais, porque hoje elas têm diálogo, o que torna a discussão em sala de aula muito interessante. Outro dia um aluno defendeu o cinema com influência da televisão e com bons argumentos. Não foi xiita, Fla-Flu. Para que no Brasil o cinema se estabeleça, tem que ter um pouco de tudo. Outra mudança é que hoje a discussão é mais apaixonada do que há 5, 6 anos. Eu acho que o cinema está tornando a apaixonar uma geração.

E o interesse pelo documentário, aumentou?
SALLES: Sim, hoje tem também tem aqueles que gostam de documentário especificamente, o que é uma boa novidade. Quando eu comecei a dar aula, 90% das pessoas estavam ali porque queriam chegar à ficção e achavam que o documentário era uma etapa necessária para isso. O documentário sempre exerceu esse papel no Brasil e fora, pois é mais barato e a equipe é menor. Você resolve num computador, não precisa de um grande orçamento, de uma grande estrutura. Ele é uma porta de entrada, mas não pode ser só isso. E hoje eu percebo nas minhas aulas que grande parte das pessoas que estão ali querem fazer documentário mesmo. E isso vai fazer bem ao documentário brasileiro. É uma das razões pelas quais o documentário brasileiro tem uma certa força.

O interesse do público pelos documentários aumentou. Você acha que é uma paixão passageira, em função do sucesso de documentários como "Farenheit 9/11"?
SALLES: Seria exercício de astrologia responder a essa pergunta. O que eu sei é que nos últimos anos o documentário brasileiro vem apresentando filmes importantes e ambiciosos. Documentários que fogem da regra geral do documentário brasileiro, que até pouco tempo parecia que só podia falar de um tema, que é o drama social. Você já tem filmes que se dão ao direito de não falar disso, o que eu acho muito saudável. Você tem um filme extraordinário como o "Passaporte húngaro", da Sandra Kogut, que é sobre a familia dela. As pessoas estão se libertando do que eu costumo chamar de imperativo do tema único. Só pode falar do menino de rua. Isso é uma prisão. Eu não quero dizer com isso que você não deve falar do menino de rua.
Você deve, mas para fazer mais um desses, pensa um pouco. Tem alguma coisa de nova ou uma maneira nova de contar essa história? Me interessa, por exemplo, um filme como "Boca de lixo", sobre um lixão, do (Eduardo) Coutinho, onde ele vai lá para descobrir que as pessoas conseguem sobreviver ali e são tão inteligentes que conseguem transformar aquilo numa possibilidade de vida. Mas fazer um filme no lixão para mostrar que aquilo é uma merda...Eu já sei de antemão, não preciso de um filme.


Escrito por Vebis às 18h25 [] [envie esta mensagem]

Como você decide os temas dos seus filmes?
SALLES: De maneiras muito diferentes. O filme anterior, "Nelson Freire", foi uma sugestão de um jornalista muito amigo meu. O do Lula partiu de um desejo meu de trabalhar junto do Coutinho e de uma idéia de tradição de
documentário americano que faz filmes sobre o processo eleitoral. No Brasil isso nunca foi feito. E a última eleição (presidencial), especificamente, foi uma eleição extraordinária, em que alguém como o Lula pôde chegar à
presidência. Pela primeira vez na história do Brasil uma figura como ele, um sindicalista que vem da luta operária, chega ao poder. Isso é novo.
Chegou a hora de fazer esse filme, pensei. O documentário brasileiro tem uma dívida com esse assunto e está hora de saldá-la. Se fosse uma outra pessoa para mim não teria o menor interesse. O Eduardo Escorel me ajudou muito nesse documentário do Lula. Ele disse que uma das inúmeras funções que um documentário pode ter é o de testemunhar alguma coisa. É o que me levou a fazer "Notícias de uma guerra particular", por exemplo. Era um momento grave da minha cidade e eu quis testemunhá-lo. O caso do Lula foi a mesma coisa.
Em trinta dias você tem uma história única em 500 anos de vida brasileira. As pessoas podem gostar do filme ou não, mas uma coisa é indubitável: é o valor do documento. essas 240 horas sobre esses 30 dias tem um valor
inquestionável. Nesse sentido, eu me orgulho muito. Não pelo filme, pelo resultado final, mas o valor do material bruto é inquestionável.

Documentário excelente para Nelson Freire

Por que você lançou "Entreatos" no final de novembro? Por que não no começo do ano ou em 2005?
SALLES: Eu gravei 240 horas. Para comecar a trabalhar eu preciso saber o que tem nessas 240 horas. Você tem que decupar tudo isso. Só isso leva três meses. As filmagens terminaram em outubro de 2002 e comecei a olhar o
material em janeiro do ano passado. Aí eu levo um ano e dois, três meses para montar o filme. É um tema avassalador. Eu levei muito tempo para encontrar o filme. Durante muito tempo eu montei um filme convencional,
com comício, carreata. E não montava, não tinha unidade, era ruim. Aí nos últimos três meses eu tomei uma decisão radical com o Felipe (Lacerda, montador). Decidi jogar fora todo o material público e ficar só com o
reservado. O filme ficou pronto em março deste ano. Aí tomamos uma decisão que considero acertada, a de não lançar o filme três meses depois para não misturar com a campanha municipal. Criaria um ruído que não seria bom
nem para o filme nem pra a campanha. A decisão foi lançar depois da campanha. Eu acho que os dois filmes são melhores vistos agora do que se fossem vistos, por exemplo, um mês depois das eleições presidenciais. Quando seriam vistos anda no clima do carnaval, sem uma sedimentação crítica em relação ao governo Lula, ao que foi possível fazer e o que não foi. Vendo agora você entender um pouco a natureza desse governo. Os dilemas já estão lá. O filme fica mais interessante hoje.

O público ri muito durante as sessões. Você esperava isso?
SALLES: Isso é bom. É bom que a gente não ria do presidente, mas com o presidente. Eu acho que o humor é um dado essencial do Lula. Algumas pessoas me disseram que ficaram decepcionadas e disseram que eu tratei com
tanta leveza um assunto tão sério. O que eu mostro para vocês é o que eu vi durante 30 dias: Um Lula absolutamente à vontade. Existe uma leitura que se pode fazer do Lula a partir do humor que é muito saudável. Um filme no qual você ri não é necessariamente um filme superficial. As questões mais sutis, importantes e políticas no filme não são aquelas em que o Lula fala de política. Eu acho que quando ele descreve o dia dela na fábrica tem uma coisa que é profundamente política. Quando fala do IBGE, que ia na casa dele e não queria saber se ele era de classe média ou não, também. A gravata é uma questão política. Eu acho que é legítimo e positivo que o Lula possa e queira usar uma gravata. Eu nunca vi nenhum trabalhador dizer que o Lula de gravata é um mal Lula. Quem diz isso geralmente é a academia, é uma esquerda de classe média. Tão aí os evangélicos. Eu fiz um filme sobre eles ("Santa Cruz") e sei o que é um sujeito ser um pedreiro de dia e de noite tomar banho e vestir um terno para ir para a igreja. Ele deixa de ser um homem invisível. Não é um filme fácil, ao contrário do "Nelson Freire", que encanta por causa da música e toca também pelo recanto do Nelson. No caso do Lula você está lidando com o poder. É mais difícil se relacionar de forma afetiva com o poder. O instinto de todo mundo diante do poder é desconfiar. Em segundo lugar, é um filme que não tem silêncio porque o Lula fala muito.
Achei que pudesse ser um filme para pouca gente, para gente que se interessa pela questão política. Para a minha surpresa ele é mais aberto do que eu supunha. Tem uma visão do Brasil e uma análise política do que é o
governo dele. Eu acho que tem um perfil que é favoravel ao Lula e também diverte.

O que sobrou vai ser incluído num futuro DVD?
SALLES: Não tudo, claro, mas tem muita coisa que vai para o DVD. Eu acho que cenas de comício que são impressionantes. Eu acompanhei a campanha americana e quando um dos candidatos falava para 40 mil parecia gloria. O Lula não pisa na rua com menos de 100, 120 mil pessoas. Acho que talvez ele seja hoje o maior político de massas do mundo. É um dado fundamental do Lula que não está no filme. Outra coisa importante é a presença da equipe. Eu não sou daqueles que acha que a presença é essencial, mas nesse caso era. Para que o espectador entenda quais são as condições que me permitiram estar em determinadao lugar. Para que ele não tenha a ilusão de que viu tudo ou de que eu vi tudo. Seria desonesto dar ao espectador a impressão de que
está vendo tudo. É o problema de todos os filmes que eu conheço. O cara não cortou porque ele quer e sim porque provavelmente ele foi mandado embora do lugar na hora.

O que será feito do resto do material?
SALLES: É um material que não pode ser aberto nesse momento a qualquer pessoa, porque tem coisas sensíveis. Não tem nada grave, mas uma campanha é filmada de muito perto e pode ser utilizada de forma maliciosa por
muitas pessoas. Não quero que o meu filme seja instrumentalizado. Mas em dez, quinze anos, é evidente que esse material tem que estar à disposição do público em geral e de pesquisadoras. Provavelmente será doado para o arquivo público ou o MIS.


Escrito por Vebis às 18h25 [] [envie esta mensagem]

Herdeiro de Johnny CAsh e Bruce Springsteen

Mike Ness do Social Distortion, em pose semelhante a Jake La Motta de "Touro Indomável"  de Scorsese


Escrito por Vebis às 18h11 [] [envie esta mensagem]

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