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Vivendo no Limite:

 

Duas palavras são suficientes para dar o tom deste filme de Martim Scorcese:  Deprimente.  Genial.  (genialmente deprimente?  Ou deprimentemente genial?)

 

Baseado no livro homônimo de Joe Connely (que tem exatamente o mesmo tom, o mesmo ritmo do filme, e, fora uma ou duas situações e personagens – sendo o mais importante Mona, ex-mulher de Frank Pierce (Nicholas Cage) -, teve uma adaptação para a tela grande excepcional, nas mãos de Paul Schrader), o filme traz alguns dias rotineiros – e a rotina é infernalmente estressante e angustiante – da vida de Frank Pierce (um Nicholas Cage cansado, com olheiras sempre profundas e um ar meio desligado, depressivo, maníaco – uma grande atuação e uma excelente escolha para o papel), um paramédico de Nova York – aquele que sempre chega antes nos locais de acidentes, nas vítimas de assassinatos, nas paradas cardíacas, dirigindo sua ambulância como um louco.

 

       

 

Frank esta em um tal estado psicológico que as coisas não fazem muito sentido.  Ele tem visto fantasmas – das pessoas que atendeu e não conseguiu salvar, das pessoas que ele atendeu, conseguiu estabilizar, mas querem morrer e acabar com o sofrimento – em especial o fantasma de Rose – uma moça que aparece nos rostos de todas as outras mulheres, que Pierce deixou morrer por não conseguir intubá-la a tempo (no livro, fica claro que ele nunca havia errado uma intubação antes, aliás, ele é um paramédico genial, nunca errando uma veia, por mais trêmulas que estejam suas mãos, por mais louco que seja o motorista da ambulância no momento).

 

O ambiente em que trabalha não poderia ser mais propício para a sua queda final:  Hell’s Kitchen – a cozinha do inferno de NY, um dos piores lugares da grande maçã, onde mendigos, psicopatas, malucos de todo gênero, bêbados incorrigíveis e prostitutas doentes dividem espaço com famílias pobres, viciados e traficantes e outros animais da fauna bizarra das baixas classes americanas.

 


Escrito por Vebis Jr, Almir ou Lobo às 11h37 [] [envie esta mensagem]

A fase por que passa também não tem sido das melhores.  Os seus “clientes” tem, um atrás do outro, morrido em suas mãos.  Meses se passam sem que Pierce tenha conseguido salvar uma vida, cada vez aumentando o número de fantasmas gravitando em torno dele.  Aos poucos, ele já começa a se convencer que ele não trabalha como um médico para salvar vidas, mas sim como mera testemunha de fatalidades irreversíveis.

 

A ambulância trafega inúmeras vezes, sempre ao som do bom e velho rock n’ roll, levando o cada vez mais estressado e demolido paramédico atrás de uma ou outra situação emergencial.

 

Seus parceiros de trabalho também não ajudam a alça-lo de volta da beira do precipício:  um John Goodman que o considera louco e precisa, urgente, antes de salvar uma parada cardíaca, de seu jantar.  Um Ving Rhames que abraçou Deus e tenta a todo custo manter um contato vulgar e amoroso com a expedidora no rádio – cujo nome é Love – Amor - e a voz é de Queen Latifah, pouco se lixando para as almas que deveria salvar e para o seu parceiro.  Um Tom Sizemore psicótico, que procura sangue nas ruas a todo custo, numa vã tentativa de livrar a sociedade de suas chagas – sem perceber que ele mesmo pode ser considerado uma delas.

 

           

 

Cercado de Bêbados Fedorentos – Sr. Oh. -, loucos perigosos – Noel – e paramédicos bizarros, não é de se duvidar que Pierce esteja perdendo a sanidade.  Contudo, ao conseguir recuperar os batimentos de um Sr. Burke, com parada cardíaca, conhecer sua filha (uma deslocada e mal escalada Patricia Arquette, a única nota dissonante no exemplar elenco do filme), Frank vê uma luz no fim do túnel, uma chance de não apenas continuar seu trabalho de salvar vidas, mas também salvar a si mesmo do inferno pessoal por que vem passando.

 

Scorcese filma sem concessões.  A câmera ágil e irrequieta, os ângulos e movimentos aumentando a sensação de loucura que vai tomando conta de Frank Pierce.  A aura de luz que o branco da camisa do paramédico possui aos poucos se apaga quando Pierce da mais um passo em direção ao abismo pessoal, ou reaparece quando uma fagulha de esperança se mostra nas pessoas que tenta desesperadamente ajudar.  Poucos diretores conseguiriam levar a cabo a difícil tarefa de transferir para película a depressão e desespero que permeiam o livro.  Scorcese consegue.  Exatamente por este motivo, seu filme naufragou nas bilheterias, teve críticas aquém do esperado e desaponta tantas pessoas.  Não existe uma linha mestra no filme, apenas uma decepção atrás de outra, colocadas de modo semi-episódico, situações sem sentido e ações incompreensíveis mostradas através de personagens semi-caricatos – que, infelizmente, lembram pessoas reais, no auge de um colapso, ou lutando contra fatos que não conseguem controlar.


Escrito por Vebis Jr, Almir ou Lobo às 11h36 [] [envie esta mensagem]

 

O filme é pesado e deprimente, e não é possível assisti-lo sem sentir um toque de tristeza e desespero enraizar-se profundamente no espectador (ao menos, neste que escreve).  O ambiente surreal e paranóico onde tudo acontece estranhamente nos lembra o próprio ambiente em que vivemos, descontadas uma ou duas peças exageradas, e as pessoas que vemos passar na tela possuem paralelos no nosso dia a dia.  Isso torno o filme ainda mais complexo e a experiência de assisti-lo ainda mais devastadora.

 

       

 

Por tudo isso, não é um filme recomendável a todos.  A não ser aqueles devidamente preparados e que não se importam de sair com uma carga extra nas costas ao fim da fita, apenas estes tem o direito de assistir o filme e ter sua opinião ouvida e respeitada.  As mães que procuram um filme sério mas tradicional, não estão preparadas.  Os fãs de Nicholas Cage que querem ver seu galã em ação, não gostarão de sua relativa decomposição em cena.  Os fãs de cinema que adoram um filme pipoca e não conseguem entender como as pessoas conseguem suportar duas horas de sessão assistindo um Magnólia da vida ou um filme iraniano, irão ficar extremamente furiosos com o que vêm.  É um filme, realmente, para poucos.  Não para os ardorosos fãs das velhas comédias, dos dramalhões chorosos ou das cenas de ação de tirar o fôlego.  Porque o filme é engraçado, em seus termos, trazendo o mais patético da sociedade para nós – um humor negro, bizarro, difícil de ser lido nas entrelinhas.  É de nos fazer chorar por constatar o quão próximos estamos da realidade retratada na tela, e de tirar o fôlego nas mortes, assassinatos e ação sem parada dos paramédicos dirigindo suas ambulâncias.  Mas é muito mais que isso, e o conjunto é desagradável de se ver e de se ouvir e de se sentir.  É uma obra genial, que não se permite ser gostada, não abre espaço para conceder esperança ao espectador desavisado, e atinge ao público como um soco no estômago.  Poucos filmes conseguem fazer isso.  E nisto reside seu maior mérito – e, comercialmente falando, seu maior defeito.  Por sorte, Scorcese não pensou muito neste lado comercial - como infelizmente ocorre com o defeituoso Gangues de NY.

 

Almir (asdf)

 

P.S. – a trilha sonora é soberba.


Escrito por Vebis Jr, Almir ou Lobo às 11h36 [] [envie esta mensagem]

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