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O que é isto?

mentiras e verdades em 24 fotogramas ou 29 frames por segundo!

Malditas ciladas que a vida prega!

Fui fazer uma merda de um teste de "qual música do Los Hermanos é você" e me chega uma resposta menos desejada:

     

Parei viu!

Por Vebis Jr


Escrito por Vebis Jr, Almir ou Lobo às 21h23 [] [envie esta mensagem]

O Amor de filmes nos Uniu! (sem viadagens, parafraseando um momento de missa!)

O que contarei aqui é uma parte de minha vida e que por tabela o montador que citarei me ajudou a enxarcar com amor os filmes de Carlos Reichenbach e de maneira mais direta, o próprio diretor.

Conheci Milton do Prado do blog Olho de Hochelaga no final de 2003 onde estava fazendo minha monografia sobre Reichenbach e a única fonte que eu tinha era a monografia do Milton do Prado que ele mesmo disse não ser boa (eu comprovei o quanto era ótima pra minha formação e olhar crítico) e a tese de mestrado de Valdir Baptista sobre Filme Demência.

Hoje, ao ler algumas postagens antigas do Carlão no Reduto do Comodoro eu acabei lendo a carta do Milton do Prado ao Carlão que me pegou num momento delicado e confesso que verteu-me lágrimas nos olhos ao notar que o processo da monografia do Milton foi um momento único ao lado de Carlão, coisas que sinto toda santa vez que me vejo ao lado do ídolo/amigo.

Pra sacar esta importância, resolvi colocar a carta do amigo Milton do Prado aqui. Gosto muito do Milton e sempre dava a idéia para o Francis chamá-lo para pautas extras no Cine Imperfeito. Não me arrependo em nada disso, muito pelo contrário, guardo sempre bons momentos com este irmão de ofício...e queira Deus que um dia tenha grana pra fazer o meu filme e ter Milton como montador....sei que seria o tipo de filme que deixaria nas mãos dele e ele captaria por formação e identificação as coisas que eu gostaria que meu filme tivesse.

                    

                    Foto minha com Carlão imitando a capa de "Alma Corsária"

Agradecimentos especiais ao Milton e ao Carlão. Segue a carta de Milton:
Escrito por Vebis Jr, Almir ou Lobo às 02h14 [] [envie esta mensagem]

Carlos Reichenbach, cinema e vida

 Era 1997, eu preparava minha monografia de final de curso sobre Cinema Marginal e tinha ido a São Paulo fazer algumas entrevistas. Consegui somente duas, no meu último dia na cidade. Num sábado, às 14 horas horas, eu me encontraria com Carlos Reichenbach; às 17 horas, com José Mojica Marins.

 Cheguei 13h55 na casa de Reichenbach. Ele acabava um artigo sobre A Ostra e o Vento, de Walter Lima Jr., que estava para ser lançado. Durante 15 minutos, defendeu apaixonadamente o filme. Convidou-me então para a cozinha, onde, cinco horas, duas garrafas térmicas de café e vários cigarros depois, tínhamos conversado sobre seus filmes, sobre os filmes dos outros, sobre cinema, sobre a vida, sobre Brasil. Saí entusiasmadíssimo, com quatro certezas: que eu acabara de ter uma das melhores aulas de cinema de minha vida, que eu seria amaldiçoado pelo Zé do Caixão por ter faltado à entrevista marcada e que minha monografia não seria mais sobre Cinema Marginal, mas sobre os filmes do Carlão (que seria como o chamaria daí em diante).

 Faço questão de contar o episódio não somente pelo caráter anedótico que ele possa ter, mas porque para mim resume muito do que o Carlão é e, por conseqüência, o que está em seus filmes. Sim, porque Carlão faz filmes de autor (expressão gasta, vilipendiada e mal utilizada hoje em dia), ele ESTÁ nos seus filmes, talvez como nenhum outro cineasta brasileiro, com o perdão do exagero.

 Carlão foi estudante de Cinema na Escola São Luís, de São Paulo, onde entrara com o objetivo de ser roteirista. Foi Luís Sérgio Person que o convenceu a dirigir, enxergando seu potencial. Depois de alguns curtas, Carlão dirigiu episódios de dois longas-metragens que dialogavam diretamente com a explosão do Cinema Marginal daquele momento. São filmes dos quais ele mesmo não gosta, colocando-os mais como experiência de vida do que qualquer outra coisa.

 Ele vem a realizar seu primeiro longa-metragem a partir de um convite para dirigir um filme estritamente comercial. Como o ator principal saiu antes das problemáticas filmagens, Carlão passou a experimentar a linguagem justamente a partir da falta de condições de produção. Corrida em Busca do Amor, cuja única cópia existente, em 16mm, foi recentemente descoberta em São Paulo, pode não ser dos seus bons filmes, mas sedimenta algumas das características que ele imprimiria em seu cinema daí em diante.

 Depois de um período trabalhando com publicidade, ele investe tudo que possui num projeto extremamente pessoal.  O resultado é Lilian M - até hoje um de seus filmes mais importantes, onde já se nota a preocupação com a figura feminina, o humor impedindo qualquer traço de demagogia, a inventividade da narrativa.

 Passam-se quatro anos e, com uma nova encomenda, Reichenbach vai dar outra guinada em sua carreira. Chamado para dirigir o que seria uma pornochanchada, ele faz A Ilha dos Prazeres Proibidos e inicia uma série de filmes em que trabalha sempre com vários níveis de leitura. Sucesso de bilheteria no Brasil e na América Latina, A Ilha… é um policial erótico recheado com idéias anarquistas e libertárias espalhadas entre as marcas de celulite das pernas das atrizes. A receita vai ser ainda mais bem dosada em Império do Desejo, um de seus melhores filmes, e vai virar uma marca do autor: o aproveitamento e a subversão do repertório popular para a expressão de suas idéias. O sucesso de público vai lhe permitir a fazer trabalhos mais pessoais, ainda sob o esquema de produção da Boca do Lixo e sob a alcunha da pornochanchada: Amor, Palavra Prostituta (que foi cortado pela censura e teve a cópia completa recentemente recuperada), Paraíso Proibido, Extremos do Prazer.

 Se alguns dos seus filmes foram sucesso de público, a leitura mais intelectual e menos preconceituosa sobre os mesmos demorou a vingar. Aos poucos, graças em parte à crítica cinematográfica do sul do país e a festivais como os de Gramado (em 1984 ele recebe menção honrosa pela integridade de sua obra graças a Extremos do Prazer) e Rotterdam (no mesmo ano, Hubert Bals, criador deste festival, apaixona-se por Lilian M), Carlão se consagra como autor respeitado.
Escrito por Vebis Jr, Almir ou Lobo às 02h12 [] [envie esta mensagem]

                               

                                Na pré estréi de "Garotas do ABC" para os que trabalharam no filme.

 

É nesse momento feliz da carreira, no final dos anos 80, que vão aparecer dois dos seus filmes mais importantes. De um lado, Filme Demência, auge do cinema como expressão pessoal, como experimentação radical, tendo um personagem masculino à deriva, como de certa forma já aparecia em A Ilha…, Extremos do Prazer, Paraíso Proibido. Do outro, o classicismo e a delicadeza de Anjos do Arrabalde, onde estão presentes novamente o universo feminino, a opressão social sem demagogia, como em Lilian M e Amor Palavra Prostituta. De certa forma e mesmo sem intenção, são filmes-balanço dessas duas vertentes.

 Depois de anos difíceis, quando ele pensa até mesmo em abandonar o cinema para se dedicar à música, vem Alma Corsária. Filme de retomada em todos os sentidos: memorialista, ali estão presentes todos os temas tratados por Carlão em sua carreira, sempre levados pelas apaixonadas citações literárias (Augusto dos Anjos, Cesário Verde), musicais (Jimi Hendrix, Debussy) e cinematográficas (Samuel Fuller, Godard), em especial do cinema brasileiro (Luís Sérgio Person, Humberto Mauro, chanchada). Caleidoscópio de referências pessoais e de toda uma geração, Alma Corsária foi feito com parcos recursos (Carlão acumulou várias funções a fim de viabilizar o filme) e lançado em um momento de agonia do cinema nacional,  conquistando os principais prêmios no Festival de Brasília de 1993. Quem não viu ainda precisa abrir o coração e a mente para esse filme luminoso.

 Carlão continua a surpreender. Quando todos esperavam outra ode ao anarquismo, ele aparece com a delicadeza de Dois Córregos. De uma tristeza profunda, o filme funciona quase como um antídoto contra qualquer cinismo – o que o torna, à sua maneira, extremamente ousado em tempo de filmes “modernos” (atenção às aspas!). Surge também com um filme moderno, com uma narrativa extremamente inventiva e um fantástico trabalho de montagem: Garotas do ABC fala de trabalho, de lazer, do mundo feminino, de racismo, de facismo. Talvez um de seus trabalhos mais mal-compreendidos, tira boa parte de sua força da tensão entre o realismo do tema e do seu tratamento anti-naturalista. E, por fim, Bens Confiscados, que ainda não tive oportunidade de ver.

 O cinéfilo que está sendo apresentado a Carlos Reichenbach por esse texto talvez identifique uma possível contradição. Falo de temas recorrentes, defendendo o lado autoral de Carlão, mas falo também de surpresas a cada filme. Também pode ter achado exagerado a quantidade de citações colocadas em tão curto espaço. Convido-o então a assistir à mostra que vai ser exibida no Festival de Santa Maria e a tirar suas próprias conclusões. Quem puder assistir aos quatro belos exemplos de seu cinema vai entender que coerência não significa acomodação e vai se dar conta que havia muito mais a falar sobre eles, até porque a obra do Carlão dá muito o que falar.

 É um pouco como aquele primeiro encontro que tive com ele, cinco horas de muita conversa inteligente e nada pedante, bem-humorada e séria, gentil mas nada condescendente, regada a muito café – mas não mais a cigarro! Oito anos e três pontes de safena depois, Carlão não pode mais fumar. Talvez por isso ele tenha mais fôlego para fazer e assitir a mais filmes, dar cursos e palestras, promover uma sessão de cinema mensal com raridades underground, escrever em seu blog, promover um prêmio anual para sites e blogs de cinema, caminhar pelas ruas de São Paulo, entrar em sebos em busca de mais um filme para sua coleção, conversar sobre cinema com quem lhe demonstra interesse e curiosidade. Na vida, como no cinema, Carlão é intenso e inquieto.

 Falei anteriormente que tinha saído do encontro que tive com Carlão Reichenbach com quatro certezas, mas citei apenas três. Deixei para o final uma espécie de confissão: quando saí do seu apartamento em 1997, eu tinha certeza que queria fazer cinema.

Milton do Prado

montador e sócio da produtora Clube Silêncio

 

 por Vebis Jr

ocomeço deste texto é lá em cima no título!


Escrito por Vebis Jr, Almir ou Lobo às 02h11 [] [envie esta mensagem]

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