Não resisti e acabei vendo o filme de José Padilha que tem caído na boca do povo, Tropa de Elite e isso me levanta uma questão norteadora: o cinema que causa impressão de crédito vem geralmente de documentaristas que fazem ficção. Os exemplos que vou citar estão com abismos de distância entre sí, mas carregam a mesma coincidência (ou não) da estética dos filmes: José Padilha, Irvin Keshner e John Cassavetes.
José Padilha faz a adaptação do livro "Elite da Tropa" escrito por Andre Batista, Rodrigo Pimentel e Luis Eduardo Soares coloca nos textos do filme, um diálogo coeso firme e digno de que chamamos de crível. Na diegese ficcional, muito se puxou sardinha para uma dramaturgia quase televisiva, onde uma novela tem que ter o poder de fácil entendimento para uma dona de casa que esteja na cozinha preparando a janta, logo, como o cinema feito em larga escala no Brasil, tem tido vícios televisivos, resultam em frases excelentes como as que Leona Cavali diz em Olga de Jayme Monjardim: "Olga, você não pode ir para Alemanha de Hitler", totalmente desrespeituoso com o público na fragilidade de se auto-explicar.

Pfarrer Eckart Bruchner e José Padilha em Monique
Muitos amigos que seriam inseridos no público de massa ressaltaram o porque de Tropa de Elite ser tão gostoso de se ver, mesmo que com toda violência, o fator seria que o filme é crível. Diseram até que parece documentário, mas insisti: é uma ficção. O diretor escolheu muito bem a idéia de que o filme tivesse a maior semelhança co a realidade, embora tenha trazido do cinema norte-americanos alguns pesos dramáticos de fraco efeito, como os surtos do personagem Nascimento interpretado por Wagner Moura.
Nota-se no corte do filme vendido pelos camelôs alguns problemas de ritmo, bem como o áudio e créditos que mostram prioridade de buscar parcerias fora do país (pelo fato de estar tudo em Inglês) e penso até que o filme ter vazado seja uma maneira de conhecerem a versão do diretor, pois tem muita coisa ali que dificilmente chegaria num corte final para cinema.
O segundo exemplo vem de Irvin Kershner que realizando "O Império contra-ataca" trouxe à saga uma gama maior de fãs, onde este leve o selo de filme favorito dos fãs, que o dissecam como uma tragédia grega. Todos diálogos deste filme, tem uma carga maior na tensão e deixa a dramaticidade longe, onde o filme fica menos frágil ao olhar de bons entendedores.

Kershner com om proto de Yoda
Cassavetes também é exemplo, pois era um documentarista que foi realizar filmes de ficção no final da década de 50, criando alí o que chamamos de Espontaneous Movie, e isso é perceptível nos seus primeiros filmes: Shadows e Faces que fiz questão de homenagear no meu curta "Das Faces e Sombras".
Quem sabe o futuro do cinema que traz credibilidade não esteja na mão de documentaristas que arriscam ou simplesmente dirigem ficção.

Meu mentor, John Cassavetes
II
Nesta semana, revi alguns filmes e vi outros que valem comentar aqui apenas por simples sequências. A morte do chefão do crime Organizado do filme"O Rei de Nova Iorque" de Abel Ferrara tem um processo de criação incrível. Acho até que colocar o personagem de Tom Cruise morrer daquela maneira em "Colateral" tenha quem sabe uma referência ou homenagem de Michael Mann para o cinema de Abel Ferrara.

O chefe da parada em "O Rei de NY" faria Zé Pequeno se sentir Lixo.
"Testemha do Silêncio" de Hitchcock, tem uma história no mínimo instigante: Um assassino começa o filme confessando o crime ao Padre que infelismente é acusado e quase evidenciado como principal suspeito e proibido de falar devido aos seus votos e ao sacramento da confissão. Conforme disse meu amigo Pier, o Padre Logan (Montgomery Cliff) explode mas tenta segurar as pontas e a cada minuto do filme o cerco fecha. Toda rede de tensão é muito bem estruturada e sua narrativa é de uma simpicidade que me sugere prender um peão que roteiriza um "Olga" ou "Zuzu Angel" e fazê-lo ver como se deixa um filme fluído sem se auto-explicar.
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Padre Logan (Montgomery Cliff) ouvindo o assassino.
Por último, vi pela primeira vez "A Bruma Assassina" de John Carpenter que faltava ver e me digam ao contrário se Carpenter não refaz a fórmula de "Halloween" e roda um filme com poucos recursos e com uma direção maestral. Há pelo menos duas seuências que voltei ao tempo e me senti preso à cadeira de tão bem conduzida e concebida nos planos. O resgate da criança na casa beira-mar com a névoa chegando, e a perseguição da locutora do rádio que foge nos tetos de xalé tem um requinte que me impulsionou a poder escrever algo no blog mesmo estando sem tempo. O elenco que seria quem sabe um belo chamariz, prova ser sólido. Mais uma vez o próprio diretor compõe a música e traz uma relação muito próxima de um envolvimento entigo de membros religiosos numa merda antiga, merda esta que vem bater à porta para cobrar, tal qual se fez em Vampiros e Fantasmas de Marte.
Filmes como estes eu não vejo há tempos. É Carpenter na sua melhor forma que pelo jeito não pára nem em filme menos queridos, mas brilhantes como "Memórias de um homem invisível".

Tripulação de "A Bruma Assassina".
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